06-12-2008

Ansiedade

Confundir tudo aquilo que é atributo duma livre opção de vida, com a filosófica defesa de uma inusitada forma de inatismo, tem-se constituído num dos sofismas da humanidade que mais tem contribuído para a manutenção do sofrimento individual. Consensualmente considerados como fenómenos intrínsecos a todo ser humano, inevitáveis ou até obrigatórios, estados de dor, como a ansiedade estão hoje tão generalizados que para além de já ninguém querer acreditar que são dependentes apenas uma livre opção individual, ainda conseguem arrecadar a maior das simpatias e até partidarismo. No entanto, expressões como, “não importa quando, desde que seja já”, apenas permitem fazer transparecer uma sociedade excessivamente mimada, obsessiva e intolerante, que em alternativa a assumir para si a responsabilidade pelos sentimentos vividos a cada momento, preferiu resignar-se ao sofrimento como forma de vida. Uma sociedade que não querendo perceber que a ansiedade, como qualquer um dos outros sentimentos de dor, depende exclusivamente das livres percepções individuais, motivou-se controlá-la, não pela aceitação da espera, mas antes pelo combate ao tempo de duração. Uma sociedade que por ter assumido a ansiedade como uma inevitabilidade humana causada pelo tempo, achou que era possível controlá-la, combatendo o indelével. No entanto, e para além de ser impossível eliminar o tempo, foi precisamente da sua não-aceitação que nasceu a ansiedade e por isso, qualquer tentativa para controlar este sofrimento, através do tempo, é tão absurdo quanto ineficaz, pois no máximo, aquilo que alguém obterá, será ainda mais tempo para combater e claro, mais ansiedade. Claro que podemos todos, e às vezes até devemos, diminuir o tempo de duração de várias coisas. Dos nossos banhos diários, por exemplo; reduzimos o consumo de água, a despesa diminui, o mundo agradece e nós ficamos muito satisfeitos. Contudo, isso não elimina ansiedade nenhuma e por vezes pode mesmo aumenta-la, tal como aumentou a de todos aqueles que hoje demoram apenas umas horas a atravessar o atlântico, em comparação com todos os que antigamente demoravam meses para fazer a mesma travessia. Ou seja, apesar de neste últimos anos a nossa sociedade, depois de muita luta e determinação ter tido o inimaginável mérito de diminuir o tempo de duração de quase tudo, nunca como agora se viveu com tanta ansiedade. Aliás olhando apenas para os resultados numa perspectiva do sofrimento, diria que a ansiedade sentida segue uma relação inversamente proporcional ao tempo de duração vivido.
No entanto, e porque o sonho de conseguir tornar realidade tudo, no exacto segundo em que o desejam, continua a motivar todos e a vender-se como indispensável para uma vida de sucesso, a vivência da aceitação da espera tem-se revelado um enorme problema. Mas, se complicadíssimo tem sido viver a espera nos casos em que o tempo está perfeitamente definido, como no caso de uma gravidez, por exemplo, onde ainda assim não falta quem culpe a ciência por ainda não ter inventado uma forma de antecipar o nascimento, pior se torna quando tanto o resultado como período de espera são completamente desconhecidos. Nestes casos, tão difícil quanto a espera é ainda a incerteza quanto à sua manifestação, como acontece quando alguém se propõe a emagrecer, por exemplo, pois quando percebem, no acordar do dia seguinte, que não houve qualquer evolução, logo a incerteza de algum dia conseguirem o peso a atingir se instala e então desesperam e muitas vezes desistem. Esta mistura entre uma obsessiva vontade de obter algo incerto, com a irascível decisão de não querer esperar pelo tempo certo, origina depois a “ansia-carecente”. Um sofrimento dois em um, cuja única finalidade consiste em justificar com o futuro toda a carência sentida no presente. Ou seja, esta ilusão de que a felicidade depende de hipotéticas conquistas futuras, para além de aumentar a intolerância à espera, cria ainda uma enorme sensação de falta.
Estranho também é ver as pessoas ansiar permanentemente pelo futuro enquanto vivem seduzidos pelas saudades do passado: Anseiam por acabar um curso, para depois terem saudades do tempo de estudante. Anseiam por conseguir um emprego, mas depois não falta quem sinta falta dos seus tempos de preguiça. Anseiam por casar para depois desejarem a vida de solteiro. Anseiam por chegar a todo o lado, para depois quererem voltar. Anseiam o futuro, para desejar o passado. Enfim, passam o tempo a querer estar no tempo em que não estão, ao mesmo tempo que depois tentam controlar o tempo que não querem, para fugir a um sofrimento causado pelo tempo e encontrar uma felicidade intemporal. Confuso? Não! Confuso é não ver ninguém a “ambicionar” estar precisamente onde está, a não ser, claro, quando já aqui não estiver! Se isto não é ridículo é no mínimo um dos comportamentos mais invulgares de todo o reino animal. E nós é que somos os racionais!
Por outro lado, este tipo de percepção orientada para o futuro desliga-nos da real consciência daquilo que vivemos em cada momento, o que para além criar ansiedade, resulta ainda na vivência de uma espécie de sonambulismo consciente e origina que muitas pessoas mantenham até, dúvidas efectivas sobre se aquilo que recordam faz parte de algo realmente vivido ou se tudo não passou de um sonho. Também não falta quem já tivesse conduzido inúmeros kms pelo meio do transito sem depois ter consciência ou memória da viagem ou quem já teve de reler páginas inteiras de livros ou revistas por não se lembrarem de uma única linha ou ideia do que acabaram de ler. Ainda os que conseguem estar minutos seguidos numa conversa e de repente perceber que não escutaram absolutamente nada do que ouviram. Quanto tempo, também, não passam as pessoas à procura de coisas que lhes fazem falta e não fazem a mínima ideia de onde possa estar? Infelizmente, não falta quem considere todos estes episódios como características pessoais, e ás vezes até charmosas. Contudo, não consigo encontrar piada a nenhuma manifestação de vida não sentida e sem sentido, seja pela ausência da consciência real do momento, como pela crónica vivência da ansiedade sofrida.
Felizmente que a simplicidade infantil ainda lhes permite sentir a vida de forma a poder aproveitar o tempo disponível para crescer a brincar e viver cada momento com aquilo que existe. Caso contrário, o que seria, por exemplo, da vida de uma miúda com cerca de 10 anos, filha de um amigo de longa data e que, há uns tempos, num jantar de amigos, contou-me que iria ser médica como os pais? Provavelmente, como todas as crianças, irá viver com natural leveza a sua descontraída segurança num desejado futuro distante. No entanto, também ela terá de resistir à sofrida forma de vida dos adultos, que pela triste incapacidade para brincar e viver sem ansiedade, tentam cada vez mais ensinar-lhes que o importante é sempre a total obstinação pelos objectivos definidos, para ontem!
Claro que na vida é fundamental ter objectivos, metas ou propósitos a cumprir. É indispensável querer, desejar ou ambicionar. Contudo, e antes de qualquer outra decisão posterior, é fundamentar assumir que o factor tempo é absolutamente incontornável. Não aceitar isto é como estar a rejeitar até a própria vida, pois também esta é essencialmente todo o tempo que existe, entre o dia em que nascemos e o dia em que morreremos. Por outro lado, a vida também não tem de ser uma competição por objectivos, pois uma qualquer e obcecada busca por pontos de destaque não apenas reduzirá o resto da vida a um triste e ansioso vazio, como tornará esse vão ainda mais impossível de aceitar. Por isso, e compreendendo que não é fácil viver esta relação tempo/objectivos, é ainda assim imprescindível que cada pessoa consiga desligar-se desta electrizante e infernal “enxurrada” de fins para aceitar a silenciosa e pacifica corrente de meios. Porque a única coisa verdadeiramente indispensável na vida somos nós, é importante que cada um se volte mais para si próprio, que aceite que tudo começa em si, e com tempo também pode acabar em si. É importante que aprenda a amar-se por aquilo que é, e nunca por aquilo que os outros gostariam que fosse. Finalmente, é importante que olhe para cada objectivo, não como um fim, mas apenas como mais um ponto de partida para outro destino.
Só existe uma coisa que não precisa de tempo algum para ser alcançada. A felicidade! Apenas ela existe livre e independente de qualquer condição futura e apenas ela é verdadeiramente intemporal. Por isso e porque na vida existirá sempre objectivos presentes, importa não fazermos depender a felicidade de nenhum deles, pois caso contrário esta permanecerá inalcançável para todo o sempre. Assim, a cada despertar escolho sempre a percepção de que tudo está exactamente como devia estar, mas também com a percepção de que cada um de nós representa, a cada momento, muito mais do que aquilo que evidencia. Levanto-me com a consciência que sou tudo, mais aquilo que ainda não teve tempo de se manifestar. Tudo aquilo que apesar de não ser habitualmente quantificado, vale tudo aquilo que quisermos e muito mais do tudo aquilo que possamos ter a cada momento. Seja a imensidão dos sonhos, a motivação do querer, o poder das vontades, a força da expressão ou a decisão das acções, todas elas, existem em permanência e contribuem para criar um futuro diferente.
Quanto ao resto e da mesma forma que é para mim difícil imaginar uma criança viver ansiosamente durante 20 anos à espera de realizar o seu sonho, também eu continuo a viver os meus sonhos com a mesma tranquilidade com que vivo cada uma das realizações vividas, sem preocupações ou ansiedade pelo tempo de espera. Pois, a vida é um todo e a recusa de qualquer uma das partes, resulta não só na perda da percepção de totalidade e da nossa própria individualidade integrada, como também faz com que a vida se torne pouco mais do que pequenos retalhos temporais acompanhados por um sentimento de separação com tudo que existe.
Assim, e com a certeza de que não existe absolutamente nada que, no futuro, possa fazer com que seja feliz agora, vivo determinado a manter uma aceitação temporal para continuar a viver a felicidade intemporal!

17-10-2008

Crises

Ultimamente e a propósito de frases descontextualizadas retiradas de teorias ou livros na moda, não falta quem acerrimamente defenda a crença na total inexistência de impossíveis. Não querendo contribuir para essa discussão, e enquanto aguardo pelo dia em que alguém consiga emagrecer através do consumo de água com sabores, percebo que impossível é conseguir passar um dia inteiro sem ouvir a palavra crise. Existindo na forma de uma espécie de “fetiche”, as crises parecem apaixonar todos, pois estão presentes em todo lado e há sempre uma para cada gosto e para cada circunstância. Seja económica, desportiva, criminal, cultural, laboral, moral ou até hemorroidal, esta espécie de prazer mórbido pela desgraça levou a que esta estivesse presente nas rádios e nas televisões, em todos os jornais e revistas, em cada conversa ou em cada esquina tornando verdadeiramente impossível alguém acordar e não ouvir notícia de alguma calamidade nos seus primeiros 5 minutos de cada dia.
Este comportamento de adoração da crise é antigo e resulta de uma espécie de união conjugal existente entre Deus e a Desgraça. Os dois formam assim um par perfeito, pois completando-se, não vivem um sem o outro, estão sempre juntos no bem e no mal, são igualmente venerados, vendem-se em conjunto e até geraram vários filhos. Alguns desses filhos são legítimos, como a triste e repressora menina católica, a mais velha e “vitimizadora” judia, ou ainda a muito sensível garota muçulmana, mas também não faltam inúmeros bastardos mais recentes, que reclamam por um estatuto de equiparação aos filhos legítimos. Contudo, todos estes descendentes do casal “deusgraça” igualam-se numa estranha forma de vida com muito pouca graça, mas bastante sucesso, vendendo a protecção de um Deus pai a quem melhor venerar a Desgraça mãe. Isto resultou não apenas numa exótica competição pela maior desgraça mas também pelo aparecimento da lamentação como arte de sedução! A lamentação surge assim como forma de apelo a uma qualquer entidade protectora vendida pelos filhos e bastardos, sendo por isso vulgar ouvir associadas às vítimas frases como; “que mais me pode acontecer...”, “o que fiz eu para merecer isto...”, “não posso mais...” ou “eu fiz tudo o que podia...”. A ideia é simples, lamentar o mais possível para que os supostos protectores chorem com tanta pena e resolvam ajudar...O problema é que isto não funciona!
O nosso cenário social foi assim centrado na dicotomia do bem e o mal, com culpas e culpados, com vítimas e agressores, um cenário onde as pessoas agem como desesperados pintores numa atónita competição pela tela mais negra, tentando agradar aos “bons” para vencer os “maus”, ao mesmo tempo que se investem em pungentes críticos condenatórios de telas alheias e simultaneamente em ilustres mestres e sabedores de todas as milagrosas soluções, quer seja para pintar o quadro mais belo como também para qualquer outro problema da humanidade! Ou seja, dou por mim a viver num país de especialistas gerais sobre crises pessoais e onde todos são simultaneamente vítimas, críticos, condenadores, juízes, peritos e profetas...mas sempre da desgraça.
Contudo, e apesar de haver tantos peritos com soluções milagrosas para todos os gostos e com tantos culpados identificados e ainda numa época em que se vende todo o tipo de segredos espirituais para atingir a abundância, seria de esperar que se falasse mais em prosperidade e menos na crise do costume.
Mas afinal o que se passa? Será que a culpa continua a ser exclusivamente dos governantes? Será castigo divino por devoção à religião errada? Será obra dos extraterrestres? Será que as pessoas não estão a seguir as exactas instruções dos livros de auto-ajuda? Será do bin-laden?
Uma coisa é certa... tem de haver um culpado! Isto de haver vítimas sem alguém para acusar não tem piada nenhuma. Tem de haver uma qualquer força maligna que anda a enviar muita energia negativa e a impedir que cada português possa adquirir o seu Ferrari.
Mas depois de milhares de anos a pregar o mesmo e com os mesmos resultados será que já não é tempo de perceber aquilo que não resulta? Tempo de experimentar algo diferente que não apenas as queixas ou os culpados, mas antes uma atitude individual perante a vida e a sociedade?
O argumento do filme actual, onde alguém tendencialmente bom tenta de todas as formas possíveis encontrar uma felicidade inalcançável e simultaneamente ter de lutar contra todo o tipo de desgraças e maldades por parte de outros personagens igualmente bons, está definitivamente esgotado. Um filme com biliões de personagens principais todas boas, à procura de algo que acreditam não existir, enquanto se culpam mutuamente tanto pelas desgraças pessoais como colectivas e discutem o bem e o mal de cada um, não faz qualquer sentido.
Ninguém é obrigado a representar o argumento dos outros, nem a participar em filmes tristes ou a reviver histórias passadas. Cada um pode escolher o argumento que quiser e fazer do seu filme uma nova história, onde a felicidade não seja o objectivo, mas um bem a preservar. Um argumento sem vítimas, culpas ou culpados, onde cada um possa criar a cada momento a sua própria realidade sentida. Uma história pessoal dentro de um filme produzido em comunidade e que permita a liberdade de cada um ser aquilo que é e simultaneamente a consciência da permanente aceitação da co-responsabilidade dos outros co-criadores. Um filme em que, independentemente do seu drama, cada actor aceite o argumento colectivo e co-criado para cada episódio, sem nunca se obrigar a representar o papel de vítima ou pobre coitado. A representação deste papel, para além de não contribuir para a resolução de problema nenhum, ajuda a reforçar ainda mais o enredo dramático, criar um novo problema e abstrair-se do essencial; a percepção da solução e a manutenção da felicidade!
Quando me pedem para pensar numa sociedade perfeita, penso sempre na actual, pois para mim nada que não exista pode ser perfeito. Mas quando imagino uma sociedade mais evoluída, de imediato imagino um corpo humano perfeitamente são.
A sociedade é um conjunto de pessoas que interagem entre si, formando um sistema de relacionamentos facilitado pela constituição de subsistemas organizacionais e independentes, como é o caso das empresas, associações, autarquias, escolas ou até as prisões. Paralelamente, o corpo humano também pode ser visto como um conjunto de pequenas células que interagem entre si, formando os nossos diferentes órgãos com funções muito específicas para o melhor funcionamento da totalidade do nosso corpo físico. Cada órgão tem assim uma determinada função e cada célula é composta também ela por pequenas outras partículas, com uma missão individualizada, desempenha uma indispensável tarefa no bom funcionamento de todo o organismo. Contudo, as semelhanças entre o corpo físico e o social não persistem apenas pela sua constituição, pois no que se refere ao funcionamento as semelhanças são igualmente notórias e muitas vezes com resultados bastante desagradáveis, pois são infelizmente muitos os que conseguem, por exemplo, sentir o efeito de células tendencialmente competitivas e decididas a evoluir às custas de outras. Triste ainda seria o resultado de outro corpo físico onde estivesse criado um padrão assumido e reconhecido de importância diferenciada de algumas células em relação às outras. Ou então onde algumas células vivessem muito infelizes por acharem que estão a ser vítimas de outras ou ainda imaginar todas as células de um corpo a dar palpites sobre a forma como as outras células dos outros órgãos deveriam funcionar. O que seria que tivéssemos as células dos rins mais preocupadas em venerar as células do coração do que em fazer a sua função, ou as células do fígado em greve por não concordarem com o funcionamento do estômago, ou ainda a existência de irritadiças células insubmissas que em protesto com o funcionamento de algum órgão decidiam iniciar uma espécie de revolta. O resultado para a saúde do organismo seria, como muitas vezes é, catastrófico, seja na forma de uma doença menor como seja na forma de uma terminal.
A boa notícia é que as células do nosso corpo, tal como os seres humanos na sociedade, são tendencialmente solidárias e respondem muito mais rapidamente às vontades positivas do que às tensões gerais da mente. Cada célula do nosso corpo está intimamente ligada à nossa actividade mental, fazendo com que cada uma delas funcione na mais perfeita normalidade para o equilíbrio geral do corpo ou, pelo contrário, criar diversas tensões e bloqueio específico no nosso organismo. Isto é perfeitamente explicável pela constituição da própria célula, pois quando a decompomos até seu limite percebemos que no nosso corpo nada mais existe do que apenas espaço na forma de uma massa de energia em movimento permanente. Assim, o ser humano possui, através da sua mente, a espectacular vantagem de conseguir regular a frequência e equilíbrio do seu corpo energético, conseguindo ser tão saudável quanto mais equilibrada essa frequência energética permanecer. Numa sociedade, cada um de nós representa uma célula e contribui individualmente também através da sua mente e das suas percepções para a formação de uma espécie de “mente” social representada nas crenças, tendências ou costumes de cada sociedade. Como esta “mente” social, tal como a nossa, é tão capaz de produzir harmonia como o total desequilibro, torna-se imprescindível que cada um contribua de forma positiva para um todo mais equitativo e solidário, através de uma permanente escolha individual da melhor percepção que permita levar à uma total aceitação. Uma percepção de aceitação de cada outro elemento da sociedade, como a de cada escolhida função associada. Aceitação até de quem não faça a mínima ideia do que anda a fazer ou mesmo daqueles que parecem ter por objectivo estragar e destruir, pois, mesmo que seja difícil entender, também eles são a sociedade e contribuem para a sua evolução. Importa depois cada um escolher qual o seu papel na sociedade, sabendo que existem regras, pois da mesma forma que existe depois no corpo humano o sistema imunitários a quem compete a função de combater anticorpos também na sociedade existe o sistema judiciário e policial para persuadir e combater quem atente contra o equilíbrio social. No entanto, é imprescindível que cada um percepcione que, para um equilíbrio social como para qualquer forma de evolução, todos precisamos de todos para existirmos, pois no limite, o polícia precisa dos ladrões para existir, assim como os médicos dos doentes, os professores dos alunos, os soldados da guerra ou os voluntários dos desprotegidos.
A sociedade existe assim, na sua plenitude, em evolução permanente, cabendo a cada um de nós a responsabilidade de contribuir com as melhores percepções e com o nosso equilíbrio individual para uma evolução não apenas mais rápida, mas essencialmente mais suave. Cada pessoa, como única responsável pela sua mente pode escolher, em alternativa a um corpo humano sólido, severo e inséctil, ou de um corpo social tenebroso, hostil e perverso, a percepção de corpos energéticos e em constante movimento evolutivo, perfeitamente adaptáveis e infinitamente regeneráveis.
Com este tipo de percepção e sabendo da responsabilidade individual de cada pessoa, aquilo que atrevo a questionar é; como podem as pessoas exigir para a sociedade aquilo que não conseguem para si? Como podem exigir paz para a sociedade se vivem permanentemente em guerra? Como podem exigir dos outros aquilo que nem por si próprios fazem? Como podem reclamar por justiça se nada nas pessoas faz sentido? Como podem lamentar o ambiente se nem o seu corpo são capazes de cuidar? Como podem querer uma sociedade sã, se não conseguem manter o corpo numa forma equilibrada e saudável? Como podem querer uma sociedade equilibrada sem a solidária colaboração de cada pessoa individualmente representada? Com desejar uma sociedade solidária e abundante através uma cultura individual de concorrência?
Nós somos a mente da sociedade e isso pode representar-se como parte da solução ou como elemento contributivo do problema. Compete assim a cada um de nós permanecer num cenário concorrencial onde no fim todos perdem, ou mudar e ganharmos todos.
Claro que é fácil criticar a guerra e as injustiças do mundo, dizer que gostava que não houvesse fome no mundo ou culpar os líderes deste ou daquele país, deste ou daquele partido, desta ou daquela religião. É fácil demais criticar, acusar, dar palpites e passar o tempo revoltado com tudo que não gostam. O problema é que isso não melhora nem ajuda absolutamente nada, pelo contrário, só piora.
É importante que a culpa e vitimização pelo “eles” seja substituída pela aceitação do “eu” e do “nós” muito mais motivador e solidário. Cada segundo gasto da nossa vida a pensar ou comentar a vida dos outros, naquilo que fizeram e não deviam ter feito, naquilo que poderiam ter feito, ou naquilo que queremos que façam, é um segundo que não aproveitamos para a manutenção da felicidade pessoal e, obviamente, para a felicidade da sociedade.
A sociedade é a representação da totalidade das nossas individualidades e por isso não é de todos, mas somos todos!
Assim fosse o mundo!

13-07-2008

Ponto de Menor Resistência

Ultimamente tenho assistido a uma preocupação crescente por parte da nossa sociedade com questões relacionadas com o equilíbrio ambiental, mas simultaneamente também assisto com curiosidade a um crescente número de pessoas cada vez mais desequilibradas. Ainda que possa à partida parecer que um tema nada tem a ver com o outro, a realidade mostra que um maior desequilíbrio colectivo contribui de forma significativa para um aumento das constantes agressões e inúmeros atentados humanos contra a própria natureza. Desta forma, seria muito mais natural e resultaria melhor se a sociedade em vez de se preocupar com a natureza aprendesse a forma simples como esta consegue recriar-se continuamente e encontrar sempre o seu equilíbrio natural mesmo contra todas as adversidades. Útil seria depois perceber como poderá isso contribuir para o equilíbrio individual da humanidade.
Ao contrário das pessoas, a natureza não pensa nos problemas, encontra sempre as soluções e consegue restabelecer-se através daquilo que eu resolvi chamar de “ponto de menor resistência”. Este é o ponto de encontro de todas as soluções necessárias para uma próxima etapa. Ou seja, o ponto por onde a água, por exemplo, consegue a encontrar uma passagem ou o ponto por onde o ar consegue furar e continuar a existir em todo o lado.
Tal como o ar progride melodiosamente de forma contínua, sem dúvidas passadas ou medos futuros, todos os restantes elementos da natureza, com excepção do ser humano, escolhem sempre o caminho de menor resistência para avançar. Na sua magnífica simplicidade, a natureza “limita-se apenas” a fluir e interagir de forma absolutamente sublime com tudo que existe, encontrando sempre as soluções necessárias para a sua evolução e equilíbrio.
O ser humano tende a funcionar como o “ponto de maior resistência”. É um pouco como imaginar o vento a insistir atravessar as paredes de uma casa, tendo as janelas abertas ou as águas de um rio recusarem-se a descer com medo de avançar.
Como parte integrante da natureza, o ser humano, devia também viver equilibrado, avançando harmoniosamente na vida por entre os caminhos de menor resistência, fluindo em união com a totalidade. Porém, o caminho escolhido tem sido outro. Ao contrário de uma pequena gota de água, que a cada momento move-se para a direita ou para a esquerda, de forma lenta ou rápida quer em função do declive como das irregularidades do terreno, as pessoas, pensam, tornam a pensar e pensam mais ainda para tentar adivinhar aquilo que pensarão depois de adivinhar aquilo que vão fazer a seguir. Depois avançam e pensam se ainda vão a tempo de recuar, seguem pela direita e ficam a pensar se teria sido melhor ter seguido pela esquerda. No fim, percebem que a melhor solução não era a esquerda ou a direita mas sim, seguir em frente. “Na próxima já sei...sigo em frente”. Claro que na indecisão seguinte todo o ritual se repete, para chegarem à conclusão que agora, a melhor solução, teria sido recuar! Enfim, lá chegará o dia em que acertam uma.
Por outro lado, e ao contrário das árvores que nunca se recusam a entregar o fruto dos seus ramos, as pessoas vivem de forma absolutamente exacerbada o apego a tudo que querem para si. Formulam objectivos incontestáveis, prazos austeros e até percursos severos. Depois, tentam assegurar-se com todos os meios necessários, para que nada nem ninguém os faça afastar um milímetro do rumo traçado. O problema é que, apesar de todas as indicações que a vida nos vai apresentando para inverter um percurso obstinado, a força do apego a/de uma mente teimosa acaba por ganhar e levar-nos numa direcção oposta à felicidade. E quanto maior o esforço encontrado, a luta encetada ou a resistência ultrapassada, maior serão as perdas indesejadas, o preço pago e a desilusão na razão do beneficio esperado.
Assim, e porque a obsessão individual por um qualquer “Ter” resulta inevitavelmente num sacrifício do seu “Ser”, a solução só podia estar no desapego com que a natureza decide viajar por entre os seus “pontos de menor resistência”! Ou seja, Ter muito é óptimo, mas apenas quando é conseguido à custa de um Ser equilibrado. Isto só pode ser conseguido através de uma totalidade entre um “Ter” desapegado e um “Ser” autêntico pois, o verdadeiro mérito, não está em ter tudo, mas sim, ser feliz.
Também não falta quem confunda, frequentemente, o “caminho da menor resistência” com a escolha pela via do “facilitismo”. Uma coisa é aceitar que o caminho nem sempre é aquele que obstinadamente insistimos, outra completamente diferente, é escolher o irresponsável caminho da facilidade e da indolência, para ultrapassar dificuldades naturais. Uma coisa é seguirmos a corrente, outra, é tentarmos apanhar boleias fáceis ou atalhos tentadores.
Quando, ao mesmo tempo, vemos a natureza a funcionar de forma perfeita e equilibrada e assistimos a tantas vidas humanas perdidamente infelizes, apetece-me perguntar se a nossa diferenciada capacidade mental se traduziu numa valiosa esperteza ou inoportuna estupidez!