22-05-2008

Ciclo do medo

É tão fácil dominar uma bola nas nossas mãos que até uma criança é capaz de o fazer. Bem mais complicado, embora possível, é dominar várias bolas nas nossas mãos em simultâneo e com os olhos vendados. Já improvável será tentar controlar tudo aquilo que nos passa pelas mãos, pelos olhos e pelo coração. Impossível é controlar o incontrolável...a vida dos outros. Apesar disso, não falta quem passe uma vida inteira a tentar controlar tudo e todos, numa espécie rudimentar de um Deus todo-poderoso, universalmente desgastante e infinitamente patético. Dramático é perceber que todos estes pseudo “seres supremos” resultam da tentativa de fuga a um sentimento tão vulgar quanto o medo.
Como ninguém gosta de sentir medo, a busca pela segurança e confiança necessária para uma vida feliz, tornou-se num primado da humanidade. No entanto, esta procura origina sempre uma decisão entre duas opções tão antagónicas na forma como no resultado. Uma, aceita o medo como um sentimento tão natural quanto a manutenção da felicidade deveria ser, enquanto a outra tenta controla-lo com o poder que a rejeição queria ter. Infelizmente, a forma escolhida pela sociedade para lidar com o medo foi a segunda. Contudo, a sua não-aceitação apenas criará condições para que este se manifeste de forma ainda mais intensa e nada natural, como seja através do pânico ou da fobia. Pois, quando se valoriza o medo, todas as nossas atenções e energias ficam centradas num hipotético problema, criando até algumas condições necessárias para que então ganhe forma e se converta num problema real. Também, quando se procuram explicações em todo o lado, para algo que pode acontecer em lado nenhum torna-se necessário controlar tudo no presente para condicionar algo no futuro. No entanto, como a condição absolutamente necessária para controlar alguma coisa é o Poder e como a busca de idênticas razões para medos semelhantes resulta inevitavelmente na tentativa de controlo sobre as mesmas coisas, iniciam-se depois guerras e lutas desenfreadas por poderes confrontantes que originam necessariamente novos medos, nova fuga e um novo ciclo tristemente vicioso, criador da mais profunda intranquilidade e sofrimento.
O medo é um sentimento tão normal e transversal a todo o ser humano que é a forma como o vivemos e lidamos com ele faz toda a diferença. É um sentimento tão irracional e inexplicável quanto o amor e justifica-lo seria tão infrutífero como procurar razões para amarmos! Portanto, como dois sentimentos poderosos, independentes e incontroláveis que são, a receita só poderia ser a mesma...Aceitação incondicional, seja para vivermos um amor total e livre, como para o fazer de forma segura, confiante e tranquila!
Já quando o medo e o amor se cruzam, nasce aquilo que para muitos é considerado como uma manifestação de amor, o ciúme. Neste caso, e uma vez mais, a solução tem passado por tentar controlar o outro de forma a garantir que será e estará sempre como e onde queremos, para todo o sempre. Para isso recorre-se, claro, ao poder e a todas as suas ferramentas de força, sejam monetárias, físicas, sentimentais ou psicológicas. O problema é que, nas relações como na vida, o excesso de poder gera excesso de controlo e consequentemente, uma maior insegurança e medo de perda, ou seja, um ciúme exponenciado na forma de obsessão! Neste ponto, já quase tudo é permitido e justificado para garantir a manutenção daquele suposto amor, pois uma possível perda futura é sempre vista no presente como totalmente inaceitável pelo vazio e desespero associado. Nas relações, como na vida, luta-se demais de forma a garantir o poder para controlar algo que não se quer perder. E isso não é amor...é medo. Só aceitando o medo de perder é que podemos sentir o amor livre, pois não se pode ter aquilo que não nos pertence, a liberdade do outro, e quando o amor sentido é incondicional, aceita-se até que a felicidade da outra pessoa possa deixar de existir ao nosso lado. Assim, quando nos abrimos ao medo ele perde a razão e transforma-se em amor.
Claro que por vezes parece que tudo conspira contra nós, numa espécie de prova de vida às nossas capacidades de sentir a insegurança e o medo. Assusta e dói, às vezes imenso até pela sua persistência, testando a nossa capacidade de resistir até à enorme tentação de fugir. Contudo a fuga resulta apenas e só em mais cansaço, mais dificuldades e sofrimento. Assim, hoje e através de uma simples decisão desvio-me de esquemas mentais e experimento internamente algo que não consigo, tão pouco, descrever. Posso sentir a dor da mesma forma, posso passar por dificuldades iguais ou até maiores, mas não me permito mais sofrer, pois, quando me desligo da sua razão e me abro verdadeiramente ao medo, naquele momento, sinto apenas a vibração da sua manifestação, aprecio a beleza da sua linguagem e a magnificência da sua totalidade e, aí, sinto-me livre, imortal e intocável. Sinto um poder imenso e livre para viver em paz, um presente tranquilo. Um amor-próprio incondicional e uma sensação única de felicidade imutável e independente de qualquer futuro. O desafio é depois mantê-lo!

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